
O que são Valores Pessoais E Para Que Servem:
Os seus valores pessoais representam as suas prioridades emocionais. E são eles que decidem, em silêncio, se um relacionamento dura ou desaba.
“Conhece-te a ti mesmo.” – Sócrates
Sócrates disse isto há mais de dois milénios, e no entanto ele continua a ser o conselho mais sábio – e infelizmente o menos seguido.
Entenda algo fundamental: antes de saber que tipo de pessoa precisa ao seu lado num relacionamento, tem de saber quem você é quando se relaciona. Você não pode estar a procura da outra metade da sua laranja se você é uma tangerina, ou quem sabe um limão. E quem você é, raramente é a versão de si que apresenta nos primeiros encontros.
Precisa de se conhecer a sério. Precisa de reconhecer os seus valores pessoais essência (valores-fim) – aqueles que realmente governam os seus pensamentos, as suas emoções e comportamentos, muitas vezes sem que tenha consciência deles. E precisa de os distinguir dos valores do ego: (aqueles que acha que tem ou que deveria ter), os politicamente corretos, os que coloca num currículo ou no perfil de uma aplicação de encontros.
O que a ciência (e a vida real) já provou
Eu, depois de três divórcios e anos de estudo na área do desenvolvimento humano – e nos últimos anos – após o meu 3° divórcio -mais focado no relacionamento afetivo – cheguei a uma conclusão que poucos sequer imaginam:
O fator comum nos relacionamentos longos e felizes — ou nos curtos e tumultuosos — é o mesmo: a harmonia ou o conflito entre os valores pessoais de ambos. os elementos do casal
Não é a paixão. Não é o amor, não é a boa comunicação, embora isso ajude. Não é a capacidade de resolver conflitos – embora isso também seja útil. É o alinhamento silencioso e, muitas vezes, inconsciente daquilo que cada um considera prioritário na vida.
Se os valores entre os elementos do casal estão em harmonia, ambos podem enfrentar tempestades e ainda assim levar o barco até um porto seguro. Se os valores estiverem em colisão, a mais pequena brisa vira furacão – e, mais cedo ou mais tarde, vão naufragar.
A bíblia é clara em Amós 3:3, quando diz: “Porventura andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?“.
Como escreveu o rei Salomão:
“Como a água reflete o rosto, assim o coração de um homem reflete o que ele é.” (Provérbios 27:19)
Suas prioridades emocionais – refletem seus valores pessoais essência – e isso é o que realmente somos. E o que somos determina com quem podemos andar juntos.
O provérbio popular diz: “Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és.” Eu acrescento: “Diz-me o que valorizas, e dir-te-ei quanto tempo vais durar com uma determinada pessoa.”
Word, Excel e PowerPoint: uma metáfora sobre compatibilidade
Antes de continuar, deixe-me contar-lhe uma metáfora que ilustra na perfeição o que quero dizer.
Imagine que o Word, o Excel e o PowerPoint fossem pessoas. Cada um com a sua personalidade, os seus talentos, as suas energias e os seus valores essência.
- Word é o organizado, o estruturado, o que gosta de clareza e sequência. Os seus dois valores principais são ordem e comunicação clara. O Word não suporta confusão. Precisa de saber onde começa e onde acaba cada coisa. É leal, metódico, previsível no bom sentido.
- Excel é o analítico, o racional, o que vive de números, lógica e eficiência. Os seus dois valores principais são precisão e resultado. O Excel não gosta de perder tempo. Quer saber se aquilo que faz está certo, se dá lucro, se serve para alguma coisa. É focado, disciplinado, mas pode ser frio.
- PowerPoint é o criativo, o que encanta, o que faz apresentações bonitas e convence plateias. Os seus dois valores principais são impacto e reconhecimento. O PowerPoint precisa de brilhar, de ser aplaudido, de transformar ideias em histórias visuais. É carismático, inspirador, mas pode ser superficial.
O Excel e o PowerPoint podem até sentir alguma química. O Excel admira a criatividade do PowerPoint; o PowerPoint admira a precisão do Excel. São opostos sim, mas isso pode criar o desejo da complementaridade.
Se houver uma união entre esses dois, no início, tudo vai parece funcionar. O Excel fornece os dados; o PowerPoint faz o gráfico bonito. Um complementa o outro. A química é boa.
Mas com o tempo, os conflitos aparecem. O Excel pergunta: “Onde está a validação dos números? Isto não é rigoroso.” O PowerPoint responde: “Ninguém quer ver números chatos. O que interessa é a história e a arte com que nós a apresentamos.” O Excel quer precisão; o PowerPoint quer impacto. Os valores essência de ambos estão em rota de colisão.
Por mais que se admirem e se sintam complementares, não conseguem viver juntos. Cada vez que o excel pede rigor, o powerpoint sente-se criticado. Cada vez que um pede criatividade, o outro sente-se desvalorizado.
O Word é diferente. Não é tão preciso como o Excel, nem tão criativo como o PowerPoint. Mas tem algo que ambos precisam: a capacidade de organizar ideias em texto claro e sequencial.
O Word e o Excel podem dar certo. O Word e o PowerPoint também.
Mas a verdadeira paz para cada um viria de encontrar alguém do mesmo tipo. Um Excel com outro Excel. Um PowerPoint com outro PowerPoint e um word com outro word.
O que esta metáfora ensina sobre o amor: os opostos podem se atrair-se nas energias, mas os iguais vão se manter nos valores.
Se os seus valores essência forem os do Excel, pode até sentir atração por quem tenha os valores de PowerPoint – mas vai sofrer com ele. A sua paz está em encontrar outro Excel. Alguém que também valorize a precisão, o rigor, o resultado.
A pergunta que você deve fazer não é “Será que vamos nos dar bem?” A pergunta é “Os nossos valores pessoais são compatíveis ou têm o potencial de colisão?”
Exemplos práticos: harmonia, conflito e negociação
Para perceber melhor como isto funciona na vida real, vejamos três situações:
Exemplo 1: Valores em harmonia
O João valoriza família e segurança acima de tudo. A Maria também. Quando ele chega cansado do trabalho, ela não cobra mais horas dele – porque também valoriza o tempo em família. Quando ela quer passar o fim de semana com os filhos, ele apoia – porque também acredita que é ali que se constrói o futuro.
Não precisam de explicar um ao outro por que fazem o que fazem. Simplesmente fluem. As decisões importantes são tomadas em harmonia, porque os valores que governam as escolhas de ambos são os mesmos. A casa está em paz.
Exemplo 2: Valores em conflito
A Joana valoriza liberdade e independência. O Pedro valoriza ordem e previsibilidade. Ela gosta de viajar sem aviso prévio, de mudar de planos à última hora, de sentir que não tem amarras. Ele precisa de saber o que vai acontecer no próximo fim de semana, de ter rotinas, de sentir que a vida está sob controlo.
No início, acham-se excitantes. Ela acha que ele é estável; ele acha que ela é espontânea. Mas, com o tempo, cada escolha vira atrito. Ela quer viajar; ele quer poupar para a reforma. Ela quer mudar de casa; ele quer ficar onde está seguro. Ela sente-se presa; ele sente-se desrespeitado.
Nenhum dos dois está errado. Estão apenas em rota de colisão. E por mais amor que exista, os valores pessoais de cada um estão em conflito. A menos que um dos dois mude radicalmente – o que raramente acontece sem sofrimento – o barco vai naufragar.
Exemplo 3: Valores diferentes, mas negociáveis
O Carlos valoriza reconhecimento e sucesso profissional. A Sofia valoriza harmonia e tempo de qualidade. Não partilham os mesmos valores, mas também não estão em conflito direto.
O Carlos gosta de chegar a casa e partilhar as suas conquistas; a Sofia gosta de ouvir com atenção e sente-se feliz com os sucessos do marido, mas também precisa de sentir que há espaço para se falar de outras coisas, inclusive da relação. Não há incompatibilidade fundamental. Apenas há uma necessidade de negociação.
Ele compromete-se a não falar apenas de trabalho durante o jantar. Ela compromete-se a ouvir com atenção o que ele tem a dizer mas também precisa fazer-se ouvir, em vez de se sentir ignorada e ficar chateada. Com um pouco de cedência de ambos os lados, e sobretudo com compaixão, conseguem encontrar um equilíbrio que funciona para os dois.
A conclusão é esta: se os valores estão em harmonia, a relação sobrevive a tudo. Se estão em conflito direto, a relação desmorona. Se estão apenas diferentes, ainda há espaço para negociação — desde que ambos estejam dispostos a ceder.
A armadilha dos valores do ego
Vamos ao que interessa: você.
Faça uma experiência. Pegue numa folha de papel e escreva: “Os meus valores são…” Depois, liste tudo o que lhe vier à cabeça: “Honestidade”, “Lealdade”, “Família”, “Liberdade”, “Respeito”, “Trabalho”, “Diversão”.
Pronto? Agora guarde essa lista.
Vou dizer-lhe uma coisa que talvez não goste de ouvir: essa lista, muito provavelmente, não serve para nada. São os seus valores do ego. São os que aprendeu a dizer. São os que a sociedade, a família, a igreja, o emprego, os amigos esperam que tenha. São politicamente corretos. E são, na maioria dos casos, uma mentira simpática.
Porquê? Porque os valores verdadeiros não estão na lista do que acha que valoriza. Estão nas escolhas reais que faz no dia a dia – especialmente nas que faz quando está sob pressão, cansada/o, com medo ou com raiva.
Os valores pessoais essência são aqueles que realmente movem você, tanto na forma como se sente como se comporta. São os que fazem com que, mesmo sabendo que devia fazer uma coisa, acabe por fazer outra completamente diferente.
E o mais surpreendente: muitas vezes, não temos consciência deles. Funcionam como software trabalhando em background. Correm sem pedir licença e influenciam tudo o que pensamos, sentimos e fazemos.
Heróis e vilões: os dois lados dos seus valores
Para facilitar a identificação, divido os valores essência em duas categorias: heróis e vilões.
- Os “heróis” são os valores positivos, atraentes. São aqueles que nos fazem querer aproximar-nos. Quando estamos perto de alguém que partilha os nossos “heróis“, sentimos uma paz inexplicável. Não há necessidade de explicar por que gostamos de estar juntos — simplesmente flui.
- Os “vilões” são os valores negativos, repelentes. São aqueles de quem queremos fugir. Quando detectamos um “vilão” no outro – ou quando o nosso próprio valor “vilão” é ativado por algo que o outro disse ou fez – reagimos com desconforto, irritação ou mesmo pânico. Muitas vezes, nem sabemos porquê. Apenas sabemos que queremos sair dali e manter distância.
Aqui está a lista dos principais valores “heróis” e “vilões” que identifico no meu trabalho com os meus mentorados. Leia com atenção. Marque aqueles que ressoam consigo.
Valores “heróis” (positivos, atraentes):
- Relacionamento: lealdade, honestidade, respeito, pertença, cumplicidade, fidelidade, compromisso.
- Autonomia: liberdade, independência, autossuficiência, espaço pessoal, autodeterminação.
- Segurança: estabilidade financeira, previsibilidade, proteção, ordem, estrutura.
- Realização: sucesso, reconhecimento, admiração, competência, crescimento, propósito.
- Afeto: amor incondicional, carinho, aceitação, empatia, apoio emocional.
- Virtude: justiça, integridade, altruísmo, generosidade, humildade.
- Prazer: aventura, diversão, criatividade, beleza, sexo, harmonia, sensualidade.
Valores “vilões” (negativos, repelentes):
- Medos: medo de rejeição, medo do abandono, medo de não ser suficiente, medo do fracasso.
- Inseguranças: insegurança crónica, ansiedade, necessidade de aprovação, comparação constante.
- Controlo: necessidade de controlar o outro, ciúme possessivo, manipulação.
- Dependência: dependência emocional, carência excessiva, medo de ficar sozinho.
- Deslealdade: traição, mentira, engano, quebra de confiança.
- Frieza: distanciamento emocional, indiferença, desprezo, crueldade.
- Autossabotagem: culpa, vergonha, perfeccionismo doentio, procrastinação crónica.
Atenção: todos temos valores pessoais “heróis” e “vilões“. Não há pessoas perfeitas, sem “vilões“. A diferença entre quem escolhe bem e quem escolhe mal não é a ausência de valores pessoais “vilões” – é o conhecimento que têm sobre eles.
Quem conhece os seus “vilões” não deixa que eles sabotem suas escolhas. Quem os ignora, repete os mesmos padrões eternamente.
Porque é que conhecer os seus valores pessoais muda tudo (não só no amor)
Reconhecer os seus valores pessoais não é bom apenas para o relacionamento amoroso. É bom para tudo onde haja relação entre pessoas.
- Na carreira: saber os seus “heróis” ajuda a escolher um trabalho que não o adoeça. Se a sua “liberdade” é um “herói”, vai ser infeliz num emprego com horários rígidos e microgestão. Se a sua “segurança” é um “herói”, vai sofrer num trabalho instável. Se o “reconhecimento” é um “herói”, vai definhar onde ninguém nota o seu esforço.
- Na família: conhecer os seus valores ajuda a estabelecer limites saudáveis. Se o seu “senso de pertença” é um “herói”, talvez tolere invasões que não devia. Se a sua “autonomia” é um “herói”, talvez se afaste mais do que seria bom. Saber o que valoriza permite-lhe negociar as relações familiares com clareza.
- Com os amigos: a mesma lógica. Há amigos que nos puxam para cima – partilham os nossos “heróis”. Há amigos que nos puxam para baixo – ativam os nossos “vilões”. Saber a diferença permite-lhe escolher com quem gasta o seu tempo.
O general chinês Sun Tzu, no seu clássico A Arte da Guerra, escreveu:
“Se conheces o inimigo e conheces-te a ti mesmo, não precisas temer o resultado de cem batalhas.”
Eu adapto para a vida real, sem inimigos: “se você se conhecer e conhecer os valores do outro, a vantagem estará do seu lado“. Não para vencer o outro, mas para não perder tempo com quem não lhe serve. Para não entrar em batalhas que não precisa. Para escolher as pazes que valem a pena.
E, no dia a dia de um casal, conhecer os seus valores pessoais “heróis” e “vilões” é o que permite decidir, com clareza, se vale a pena investir numa vida a dois ou se é melhor seguir em frente sozinho/a. Esse conhecimento, é o que impede que pequenas diferenças se transformem em muralhas. E é também o que transforma a convivência numa parceria verdadeira – onde ambos sabem o que é importante, onde ambos se sentem respeitados e onde ambos podem construir algo que realmente dura.

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“Feliz será aquele que olhar para o relacionamento não como um/a artista imaginando a sua futura obra, mas como um/a engenheiro/a avaliando a estrutura de uma casa pensando na dureza dos invernos que hão de vir.” Brígido Silva
Brígido Silva
Mentor e fundador do Laboratório do Relacionamento 40+
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