No tabuleiro da existência humana atual.


Vou ser sincero contigo. Este texto não é para te dar paz de espírito; é para te tirar o sono. É para te pôr a olhar para o ecrã do telemóvel, para a televisão, para o cartaz do futebol e para o discurso do político com os olhos de quem já sabe que está a ser enganado.

Imagina o mundo como um tabuleiro de xadrez. Mas não é um jogo de cavalheiros, com regras bonitas e apertos de mão no final. É um jogo de influência, de sangue, de dinheiro e de programação mental. De um lado, está a Sombra. Não é uma pessoa, não é um clube secreto com capas e anéis. É um sistema, uma teia de interesses que usa tudo o que temos de mais precioso — a nossa atenção, as nossas emoções, os nossos sonhos, a nossa alma — para nos transformar em gado manso que consome, obedece e não pergunta.

Sim, a Sombra quer a tua alma.

Quer o teu medo, a tua raiva, a tua vontade, os teus afetos mais íntimos. Ela não quer um boneco vazio; quer que tu sintas e penses exatamente como ela precisa que sintas e penses. Quer que acredites que és livre enquanto te move como uma marioneta. Quer que a tua identidade seja uma colcha de retalhos feita pelas séries que viste, pelas músicas que ouviste, pelas causas que abraçaste sem pensar, e pelas relações que fracassaram porque te ensinaram que o amor é uma guerra.

Do outro lado, está a Luz. E a Luz, ao contrário do que alguns pensam, não é uma florzinha frágil. É a verdade. É a dúvida saudável. É a vontade de acordar. Mas, neste momento, a Luz está a levar uma tareia. A Sombra está a dar um baile, porque tem os melhores instrumentos: o dinheiro, os media, os algoritmos, a indústria do entretenimento e, acima de tudo, a preguiça humana e o nosso medo de pensar por conta própria.

A Sombra programando os relacionamentos.

Os mecanismos da Sombra programa-te com abraços falsos, com emoções fabricadas, com ideias que te fazem sentir especial. O romance que vês nas novelas e no cinema não é um único padrão – não é só “a mulher que perdoa tudo e o homem é bruto”. É muito mais inteligente que isso: umas vezes a mulher é a vítima, outras é a vilã; umas vezes o homem é o predador, outras é o otário. Ou seja, parece que não é homens e mulheres de valor, existe apenas o 8 ou o 88.
A Sombra quer que os homens e as mulheres se vejam como inimigos em potência, não como companheiros. Quer que o amor seja uma negociação, uma guerra de egos, uma competição de quem se sacrifica mais ou de quem tem mais razão. Nas telenovelas e nos filmes, raramente vês um casal que resolve os problemas a conversar, que cresce junto, que se respeita na diferença. Vês sempre traições, segredos, ciúmes doentios, reencontros miraculosos e finais que resolvem tudo com um beijo, sem tratar das feridas. Isso programa-te para achares que o amor verdadeiro tem de ser dramático, doloroso, impossível. Se for calmo e bom, achas que é “sem sal”.

A programação é muito mais abrangente: ensina-nos a desconfiar uns dos outros, a sexualizar tudo, a banalizar a intimidade e a tratar o outro como um objeto que nos deve completar ou que nos vai destruir. A Sombra não quer que ames; quer que desejes, que compares, que negocies e que nunca te sintas satisfeita(o). Porque a insatisfação é o motor do consumo.

Na política, a Sombra faz o mesmo:

A Sombra não te dá um ditador escrachado; dá-te dois candidatos que parecem opostos, mas que servem os mesmos patrões. Faz-te acreditar que a tua escolha importa, para que não vejas que o sistema é uma porta giratória onde entram políticos de gravata azul e saem políticos de gravata vermelha, mas o dinheiro sai sempre pelos mesmos ralos.

No futebol, a Sombra não esmorece.

A Sombra te quer distraído; quer-te tribalizado. Quer que o teu ódio ao clube rival seja tão forte que ele substitua o ódio que devias ter ao patrão que te explora, ao senhorio que te rouba, ou ao banco que te endivida. O estádio é a igreja moderna, e o golo é a hóstia.

Nas ideologias de género a coisa só pioara

Com os movimentos identitários, a Sombra pega em lutas que podiam ser justas e transforma-as em guerras de trincheiras. O feminismo, que devia ser a busca pela igualdade, é muitas vezes convertido num discurso de ódio e separação, onde o homem é o inimigo hereditário e a mulher é a vítima eterna. Acusam a sociedade de ser patriarcal e este se comportar como uma ditadura hereditária contra a mulher. Não há espaço para o diálogo, para a nuance, para o respeito pela diferença. A Sombra radicaliza para dividir, porque um povo dividido por géneros, por raças, por orientações, nunca se une contra o verdadeiro opressor: o sistema que explora todos, homens e mulheres, pretos e brancos, gays e heteros.

E, no meio disto tudo, a Sombra não respeita a ingenuidade das crianças – a quem impinge ideologias – e seus mecanismos – antes de elas terem maturidade para questionar – nem respeita a autoridade dos pais, que são descartados como “atrasados” ou “opressores” sempre que discordam da cartilha vigente.


Mas porque a Luz não se opõe a essa investida da Sombra?

A Luz, essa, tem um problema: ela é verdadeira, e a verdade é chata, é lenta, e não dá trending topic nem likes. Ninguém põe um like ou partilha num pensamento crítico que demora horas a maturar. A Luz ganha no final? Sim, ganha. Mas não ganha por decreto divino nem por milagre. Ganha porque a mentira, mais cedo ou mais tarde, colapsa sobre si mesma. A Sombra tem de mentir todos os dias, a toda a hora, para manter a programação. É um trabalho de escravo. A Luz só precisa de ser verdadeira uma vez. E quando a verdade estala, a Sombra treme.

Mas, atenção: a vitória da Luz não é automática. Não é uma garantia. Neste momento, a Sombra está a ganhar. O tabuleiro está cheio de peças pretas, e as peças brancas estão encostadas às cordas. Para a Luz vencer, precisa de peões – você e eu – que acordem. Não podes ser um espectador. Tens de ser um jogador. E um jogador não consome a programação; desmonta-a.

E é por isso que nos próximos artigos vamos dissecar este tabuleiro, peça por peça, tema por tema. Cada um com a sua ferocidade. Sem paninhos quentes. Sem “mas também”. E vamos começar pelo primeiro tema: A POLÍTICA E O FUTEBOL – O MESMO CIRCO, A MESMA JAULA A MESMA DROGA.

E tu, vais acordar, ou vais permitir que a Sombra continue te chupando o cérebro como um mosquito chupa ao mesmo tempo que contamina teu sangue?

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